O Mundo não se Acabou

O Mundo não se Acabou

Por Luiz Paulo Vellozo Lucas

Há mais de 2.300 anos, as pessoas já enfrentavam guerras, disputas pelo poder, injustiças, medo e incertezas. Lao Tsé, sábio chinês, escreveu, ou talvez organizou, o Tao Te Ching que reunia provérbios e ensinamentos filosóficos que até hoje inspiram e são surpreendentemente atuais. A doutrina da Qualidade, bebe nesta fonte e ensina aos gestores que o bom líder governa sem precisar dominar, orienta sem sufocar e confia sem exigir obediência cega.

A ideia central é que quando o bom líder termina seu trabalho as pessoas dizem:

“Nós mesmos que fizemos isso”. O líder inferior, pequeno,  quer que as pessoas precisem dele. O bom líder ajuda as pessoas a descobrirem a própria capacidade.

Ainda não sei quem saiu vitorioso no segundo turno. Só sei que o país está dividido meio a meio sobre a quem delegar a liderança maior do Brasil.

Nos últimos dias as duas campanhas debruçaram-se na tarefa de demonizar o adversário e endeusar seu candidato oferecido como sendo a única forma de impedir o fim do mundo.

Como na musica de Assis Valente gravada em 1938 por Carmem Miranda, anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar e por isso joguei fora todos meus limites e enfiei o pé na jaca. Para meu azar, o tal do mundo não se acabou.

Com trabalho de desconstrução feito pelas duas campanhas lastreados pelo amplo histórico de erros e mentiras fartamente registrados e divulgados pelos dois campos políticos que polarizam o país, fizeram com que o numero de indecisos dobrassem nas ultimas pesquisas realizadas antes da eleição no segundo turno. Na segunda feira, dia 26 de outubro, independente do resultado da eleição, vamos constatar que o mundo não se acabou.

A campanha mostrou que os dois candidatos mudaram de posição sobre temas importantes e polêmicos como a escala 6X1 e a maioridade penal, para satisfazer a opinião publica e tentar ganhar votos numa disputa apertadíssima. Quando o resultado for proclamado, depois da campanha, teremos governo e oposição com papeis definidos. As instituições serão postas a trabalhar e as promessas de mudança serão colocadas na mesa sem eleições nacionais a vista. A estabilidade econômica e política, também o rumo do Brasil, estarão nas mãos dos lideres eleitos para governar e para ser oposição. O Congresso e o Judiciário terão que se encaixar nesta moldura renovada.

No governo ou na oposição, o bolsonarismo terá que rever a nostalgia do regime militar e aderir a uma pauta de reformas institucionais que restaurem a confiança e a credibilidade das autoridades civis e das instituições da democracia. Da mesma forma o PT terá que aceitar que o Brasil já fez uma escolha definitiva pela economia de mercado, pelo direito de propriedade e pela integração competitiva na economia global. A Constituição de 1988 e a moeda estável são conquistas nacionais e ameaça-las não pode ser plataforma de ninguém.

O aperfeiçoamento moral do Brasil também não pode ser visto como enredo de uma ficção de heróis e vilões de um mundo de fantasia. Sei que não é fácil. Democracias consolidadas e desenvolvidas como os Estados Unidos, foram capturadas por personagens despóticos aliados aos novos tiranos das Big Techs que ameaçam a paz mundial e dirigem o novo mundo digital onde todas as coisas da vida, grandes e pequenas, acontecem. Nosso padrão moral é definido no dia a dia das pessoas, na vida comum da sobrevivência, da economia real, no funcionamento das instituições e no trabalho dos nossos lideres.

O Brasil é uma democracia. Será enquanto cumprir um calendário eleitoral. As próximas eleições serão municipais em 2028 quando novos prefeitos e vereadores serão eleitos para governar nossas cidades. Com o passar dos meses veremos que as forças políticas em cada município irão se organizar em torno de projetos eleitorais para disputar as prefeituras. Alguns seguirão a liderança do prefeito e outros tentarão colocar de pé projetos alternativos.

É nas cidades que as pessoas vivem e é no poder local que a disputa politica acontece de maneira mais decisiva para o futuro do país. A qualidade do voto na cidade pode eleger bons lideres locais que não se apequenem nem se vendam como nos ensina Lao Tsé.

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