Entrevista com Isabel Berlinck: “A principal mensagem que passamos é que elas são maravilhosas, capazes e que podem superar os medos e realizar sonhos”

Entrevista com Isabel Berlinck: “A principal mensagem que passamos é que elas são maravilhosas, capazes e que podem superar os medos e realizar sonhos”

O medo pode ser definido como o estado emocional provocado pela consciência do perigo ou que provoca a consciência do perigo.

O mesmo medo que beneficiou a sobrevivência do ser humano ao longo da evolução, segundo especialistas, também limita emocionalmente, oprime e paralisa. Conviver com o medo é estar sob ameaça e constante estado de ansiedade.

Com base no conceitual da palavra medo, o Consórcio de Notícias do Espírito Santo, por meio dos veículos do grupo Política Capixaba, avança na série de entrevistas especiais do Mês das Mulheres, entrevistando a empresária e economista Isabel Berlinck.

Ela idealizou o projeto “Mulher Superando o Medo” e, em 2022, foi contemplada na categoria terceiro setor, da 2ª edição do Prêmio Mulher Arcelormittal.

A iniciativa dela foi desenvolvida em conjunto com a Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar (Comvides) do Tribunal de Justiça do Espírito Santo, em parceria com o Instituto Win e o Rotary Club Internacional.

A proposta idealizada pela economista faz parte do Movimento Nacional dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável do Espírito Santo (MNODS-ES), por estar comprometida com a Agenda 2030, da Organização das Nações Unidas (ONU).

Esta é a sexta entrevista especial da série do Mês da Mulher, que já contou com a participação da Juíza Coordenadora de Combate à Violência Doméstica, Hermínia Azoury; da deputada estadual, Camila Valadão; da capitão do Corpo de Bombeiros, Andreza Nascimento; da vereadora de Vila Velha, Patrícia Crizanto e da Primeira-dama do Espírito Santo, Maria Virgínia Casagrande.

Confira a entrevista com a economista e empresária Isabel Berlinck:

Como teve início as suas atuações no campo social?
Comecei a trabalhar com as iniciativas sociais há mais de 15 anos, formatando projetos sociais para meus clientes de consultoria financeira. Além da adequação contábil e administrativa, meu trabalho inclui traçar planos de viabilidade econômica e a captação de recursos para a execução de projetos.

Em 2013, desenvolvi um projeto de captação de recursos para o estilista capixaba Ivan Aguilar, com o objetivo de levar sua coleção para desfilar na Semana de Moda de Nova Iorque.

A contrapartida, exigida pelos patrocinadores do evento, era a criação de dois projetos sociais, nos quais participei desde a concepção da ideia, até a execução.

Nessa ocasião, tive oportunidade de atuar ministrando aulas de empreendedorismo e finanças no presídio feminino e na comunidade da Grande São Pedro, considerada socialmente vulnerável.

O contato direto com esse universo de fragilidade, vulnerabilidade e falta de perspectivas me sensibilizou, me fez pensar em prosseguir, colaborando de alguma forma mais direta e prolífica.

Como surgiu a ideia do projeto “Mulher Superando o Medo”?
Deus colocou um sentimento muito forte no meu coração, de ter um trabalho que pudesse ajudar às mulheres. Veio a ideia, formatei o projeto e aguardei o momento oportuno para captar os parceiros certos e os recursos necessários, para a execução.

Eu já tinha uma parceria com o Tribunal de Justiça em outro projeto. Tive a oportunidade de mostrar essa ideia, que veio justamente se combinar à necessidade apresentada pela Coordenadoria Estadual da Mulher em situação de violência, do Tribunal de Justiça.

A juíza responsável manifestou o desejo de promover projetos que cuidassem e trouxessem a independência para mulheres atendidas pelo órgão.

Assim, nasceu a parceria com o Rotary Internacional e o Instituto Win, além da renovação da parceria com a juíza Hermínia Azoury e com o Tribunal de Justiça do Espírito Santo.

Em dois anos de atuação, 108 mulheres e dois homens da Região Metropolitana passaram pelo projeto, que também foi premiado com o 2° lugar no Prêmio do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), concorrendo com dezenas projetos de todo o País.

Além disso, o Rotary Club foi premiado internacionalmente por ser apoiador do projeto, que foi considerado um dos mais inovadores do mundo, nessa temática da redução da violência contra as mulheres.

O “Mulher Superando o Medo” também recebeu o prêmio Farol do Bem, proposto pelo Sindicato das Indústrias Metalúrgicas e de Material Elétrico do Espírito Santo (Sindifer), por dois anos consecutivos.

Tudo isso me deixa muito satisfeita, mas o principal prêmio é ver essas mulheres, outrora oprimida, deslanchando em suas vidas.

É importante destacar que das 17 metas apontadas pela ONU, como Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODS), sete são atendidas: erradicação da pobreza; saúde e bem-estar; igualdade de gênero; trabalho decente e crescimento econômico; indústria, inovação e infraestrutura; redução das desigualdades; paz, justiça e instituições eficazes.

Em que consiste a atuação projeto na prática?
O atendimento é dividido em cinco encontros. As mulheres chegam ao projeto por indicação das varas de violência doméstica, por meio das lideranças comunitárias ou pelos canais de divulgações, como a imprensa e as redes sociais.

O primeiro passo é identificar o perfil de cada uma, as necessidades psicossociais, para apresentar a elas todos os mecanismos de defesa e proteção disponíveis, com o objetivo de garantir que elas possam se sentir seguras.

Em seguida, elas são encaminhadas aos parceiros de saúde física e mental – o Centro de Atendimento à Vida (CAV) e para o Centro de Referência Especializado em Atendimento à Mulher Vítima de Violência em Vila Velha (Cranvive).

Com essas mulheres se sentindo amparadas e seguras, partimos para a prática da educação financeira, com aulas de economia doméstica e empreendedorismo.

O projeto ainda disponibiliza um aplicativo repleto de funcionalidades, a fim de proporcionar inovação, motivação, proteção, por meio do botão disque 180, além de ajudar no controle e planejamento das finanças.

A partir daí, contamos com a participação dos parceiros, que fornecerem equipamentos, insumos e os suportes necessários para a abertura e manutenção dos pequenos negócios.

Poderia exemplificar com o caso de alguma mulher atendida, como o “Mulher Superando o Medo” pôde ser transformador?

Foram muitos os casos chocantes e inimagináveis, mas que obtiveram transformação. Poderia mencionar inúmeros.

Uma das mulheres sofria violência psicológica por meio de ameaças, mas nunca teve coragem de denunciar. No período de lockdown, esta mulher sofreu violência física e criou coragem para denunciar. Só que o marido agressor, o algoz, também era o provedor. Ela havia perdido o emprego devido à pandemia e estava refém dessa condição.

Um dia, ela me pediu uma quantia em dinheiro emprestada. Na ocasião, oferecemos a oportunidade para ela trabalhar por três dias e ganhar R$500. Um valor, inclusive, bem maior do que ela tinha pedido emprestado.

Estávamos executando um projeto de geração de renda, na confecção de quase 10 mil máscaras para distribuir às pessoas em situação de rua e em comunidades vulneráveis.

Com este recurso, ela começou um pequeno negócio na garagem da casa. Ela comprou balas, pirulitos e material para cachorro-quente. Na primeira noite, ela vendeu 115 cachorros quentes, recuperando o capital. Em três meses, ela já tinha reserva financeira em torno de R$7.000,00.

No final do ano, a mercearia dela já estava legalmente registrada e super diversificada de mercadorias.
Em gratidão ao que foi feito por ela, montou uma pequena padaria popular, para distribuir pães diariamente aos mais necessitados do bairro e para outras vítimas de violência.

Ver e acompanhar a superação dela, esse resultado maravilhoso em tão pouco tempo, me deixou muito feliz.

Realizar um trabalho de transformação requer muitas renúncias, pois a demandas são enormes. Mas casos assim fazem sentir que meu trabalho vale muito a pena.

Você passou a ter outro olhar sobre a vida, depois de ver de perto o drama de outras mulheres?

Com certeza, me deu muito mais sensibilidade para entender o outro e mais solidariedade para ajudar de maneira incisiva. Me encorajou a querer fazer muito mais por elas.

Inclusive, tive uma experiência há um ano, onde tive um mal súbito e perdi meus movimentos e a voz. Durante 31 dias fiquei muda. Essa situação me deu o entendimento de sentir na pele o que as mulheres surdas, as mudas e as que são silenciadas pela violência sentem. É uma situação que quase ninguém entende.

Isso me deu ainda mais vontade de desenvolver ideias novas, pois no projeto, tivemos uma turma de mulheres surdas e a maior dificuldade que elas têm é na comunicação com os familiares, pois nem todo surdo é alfabetizado como os ouvintes e nem todas as famílias estão preparadas para a interação.

Seu projeto mira a libertação da violência, por meio da independência financeira. Até que ponto os estudos foram importantes para você, para sua própria liberdade? A senhora se sente uma mulher privilegiada?

Me sinto muito privilegiada, pois a minha família aumentou. Ganhei 108 filhas e me emociono muito, quando recebo as boas notícias a respeito da caminhada delas, quando vejo os resultados.

Como economista e empresária há mais de 30 anos, com certeza a minha bagagem educacional, acadêmica e as experiências no mercado de trabalho foram muito importantes para meu desenvolvimento como mulher.

Conhecimento nunca é demais. E sempre foi esse o conselho da minha mãe. Ela sempre nos direcionou para os estudos. Sempre me ensinou a ter amor pelos estudos. Ela nos ensinou que conhecimento é a única coisa que ninguém pode nos tirar. Essa é uma grande verdade!

O objetivo principal do projeto é transmitir a paz e proporcionar desenvolvimento econômico para as comunidades, através da educação financeira, com foco na independência, empreendedorismo, inteligência emocional, combate e prevenção à violência, mas foi muito além.

Criamos laços afetivos. As conquistas, a realização dos sonhos de cada uma dessas mulheres gera a mesma sensação de alegria que as conquistas dos meus filhos e irmãos.

Qual a maior necessidade das mulheres que o projeto atende e que mensagens a senhora transmite a elas?

A principal mensagem que passamos para as mulheres é que elas são maravilhosas, capazes e que elas podem superar os medos e realizar seus sonhos.

Então, as orientamos para evitarem e identificarem a violência em casa, além de ampliar a consciência delas para ser canal de ajuda para alguém que precisa de ajuda na família e na comunidade.

Tivemos o caso de uma aluna diarista, mãe de quatro filhos e vítima constante de violência. Por meio do projeto, ela ganhou uma batedeira, para dar início a uma fábrica de bolos no pote.

Ela sonhava fazer faculdade de administração, mas achava que era impossível, pelo medo de não ser capaz, por não acreditar que merecia.

Quando ela passou no vestibular, me enviou a foto do nome dela na lista de aprovados e, meses depois, recebi a mensagem com as primeiras notas dela no boletim.

Na mensagem, ela expressava a gratidão por ser uma flor que desabrochou com a ajuda do projeto “Mulher Superando o Medo”, por termos ajudado a superar sua insegurança e a realizar o grande sonho dela de estudar e poder proporcionar um futuro melhor aos filhos.

Você tem a preocupação de passar para seus filhos as experiências que você observou por meio da sua atuação no projeto?

Sim, principalmente sobre os tipos de violência, que nem todo mundo interpreta como violência de fato. Tenho dois filhos. Meu marido e eu sempre os educamos e orientamos a serem gentis e ponderados com as pessoas. A importância da empatia, do cuidado e do respeito, principalmente com as mulheres.

Houve uma situação recente, em que um dos meus filhos me ligou, dizendo que demoraria a chegar em casa, porque ia ajudar a socorrer a uma amiga, pois o namorado dela a havia destratado e deixado sozinha num lugar deserto.

Meu filho ficou muito bravo com a situação e disse: “Como pode esse cara destratar uma mulher dessa maneira, a própria namorada? Ele merece ser enquadrado na Lei Maria da Penha.”

Vejo que as orientações tem surtido efeito e com certeza meus filhos vão crescer com esse legado de grande respeito pelas mulheres.

A senhora acredita em que outros tipos de políticas públicas para reduzir os índices de violência doméstica?

Precisamos ter políticas públicas com ações práticas. Vejo muitas discussões e teorias, mas poucas ações que realmente tragam transformação e independência para as mulheres.

O trabalho de prevenção é muito importante, mas não adianta somente incentivar a mulher a denunciar a violência, se a rede de apoio existente não tem estrutura suficiente para atender ao Estado todo e dar todo o apoio que ela necessita, para sair da situação vulnerabilidade.

Penso que este trabalho de prevenção deve começar desde a primeira infância, como matéria obrigatória nas escolas, pois segundo estudos, os homens replicam a violência que vivenciaram na infância.

As necessidades são muitas. Deveria haver a ampliação da estrutura de atendimento, para que ela possa levar os filhos maiores de 14 anos, que hoje é algo que as impedem de aceitarem ficar no abrigo.

O que mais pode ser feito para reduzir os impactos dessa realidade de violência para as mulheres?
O atendimento humanizado, com equipe multidisciplinar para o acolhimento das mulheres deve ser ampliado, desde a delegacia até o abrigo. Também deveria haver acompanhamento após o regresso da vítima ao lar.

Minha sugestão é que houvesse um beneficio em dinheiro, para as vítimas possuírem a renda de pelo menos um salário mínimo, até que consiga estabelecer uma independência financeira.

Outro ponto importante é o Estado ampliar os acordos de cooperações e financiamentos com as instituições que já atuam com projetos de combate e prevenção a violência, por meio de incentivos fiscais para empresas que abrirem oportunidade de empregos para mulheres que se tornaram vítimas.

Acredito que a ampliação de projetos para o recondicionamento moral dos homens agressores é um ponto crucial. Não adianta tratar somente as mulheres.

É necessário ter ações psicossociais de reeducação comportamental do homem, para que ele possa reingressar na sociedade e no convívio com os familiares, sem reincidir nos crimes previstos na Lei Maria da Penha.

 

Carlos Mobutto | Jornalista da AZ