Presidente diz que não renunciará, apesar dos protestos no Chile

O presidente do Chile, Sebastián Piñera, descartou que vá renunciar e admitiu, pela primeira vez, estar disposto a fazer uma reforma da Constituição herdada a ditadura de Augusto Pinochet, na tentativa de silenciar os protestos que ainda estão vivos nas ruas do país passados 20 dias.

Depois de ficar em silêncio por dias, Piñera deu uma entrevista à rede BBC, na qual disse que não renunciará, apesar dos protestos recentes marcados com confrontos que deixaram dois policiais feridos por bombas incendiárias na noite de segunda-feira.


Ao ser questionado pela jornalista Katy Watson sobre os pedidos de renúncia e se tomaria tal atitude, o presidente conservador respondeu de maneira simples: “Não”.

“Estes problemas se acumularam nos últimos 30 anos. Sou responsável por parte deles, e assumo minha responsabilidade, mas não sou o único”, afirmou.

Em outra parte da entrevista, disse: “É claro que chegarei ao fim do meu governo. Fui democraticamente eleito pela grande maioria dos chilenos”.

Os gritos de “Renuncie Piñera!” são ouvidos em voz alta nas manifestações de rua. Embora preveja mecanismos de sucessão, a renúncia não está explicitada na Constituição chilena.

Se a renúncia ocorrer antes do período de dois anos para completar o mandato de quatro anos – ele fará 24 meses no cargo em março próximo -, o presidente deve ser substituído pelo ministro do Interior, responsável por convocar novas eleições.

Quem vencer essas eleições, assume até o final do governo original de Piñera.

Em caso de renúncia depois da metade do mandato, é o Congresso que deve decidir o nome do sucessor.

Como opção para neutralizar a crise, Piñera também se mostrou aberto, pela primeira vez, a reformar a Constituição que data da ditadura de Pinochet (1973-1990).

“Estamos dispostos a discutir tudo, incluindo uma reforma da Constituição”, disse o presidente.

Aprovada em 1980 em um plebiscito questionado, a Constituição foi um instrumento sob medida para que o regime de Pinochet e os setores conservadores pudessem manter seu poder, mesmo depois do fim da ditadura, em 1990. Hoje, este texto é apontado como a origem das desigualdades e da distância do mundo político em relação à sociedade chilena.

Seu ideólogo, Jaime Guzmán, assassinado por um comando de esquerda em 1991, estabeleceu um quórum muito alto para qualquer modificação substantiva da Carta Magna. Também estabeleceu uma série de detalhes considerados autoritários, entre eles, a impossibilidade de afastar os chefes das Forças Armadas. Este dispositivo foi retirado da Constituição apenas em 2005, após um acórdão político.

– Manifestações violentas –

Piñera tentou enfrentar a crise nas ruas com um pacote de reformas sociais, que inclui um aumento de 20% nas aposentadorias básicas e uma redução nas contas de luz.

Ele trocou oito de seus 24 ministros, incluindo seu chefe de gabinete e primo Andrés Chadwick, e seu ministro das Finanças, Felipe Larraín.

Suas medidas falharam em silenciar os protestos, e a violência tomou conta das ruas nos últimos dias.

Nesta segunda-feira, após um feriado prolongado, várias manifestações foram realizadas no centro de Santiago e em outras cidades.

Na capital, milhares de pessoas se reuniram em frente ao palácio presidencial de La Moneda e no centro da Praça Itália. O local é epicentro dos maiores protestos, incluindo o de sexta-feira, 25 de outubro, que reuniu mais de 1,2 milhão de pessoas.

Ontem, dois policiais ficaram feridos após serem atingidos no rosto por bombas incendiárias lançadas por manifestantes.

A multidão tentava avançar na direção de Providência, cujos arredores até agora haviam sido deixados de fora da manifestação. Um grupo chegou às proximidades do Costanera Center, o maior shopping da América do Sul.

Para esta terça-feira, uma “marcha dos guarda-chuvas pretos” foi convocada pelas redes sociais para o início da noite na capital.

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