419 MIL X 49 MIL: após embate pelo Contorno de São Mateus, Polese bate recorde e Freitas fica na suplência

419 MIL X 49 MIL: após embate pelo Contorno de São Mateus, Polese bate recorde e Freitas fica na suplência

Lucas Polese e José Eustáquio de Freitas protagonizaram um dos embates políticos mais barulhentos de 2026; meses depois, disputaram o mesmo cargo e terminaram em extremos completamente diferentes das urnas

A política produziu neste domingo (4) uma fotografia difícil de ignorar.

De um lado, Lucas Polese (PL), deputado estadual que passou meses cobrando explicações e levando aos órgãos de controle denúncias relacionadas às obras do Contorno de São Mateus e à gestão do ex-diretor-presidente do DER-ES José Eustáquio de Freitas.

Do outro, o próprio Freitas (PSB), que negou irregularidades e também entrou na disputa por uma cadeira na Câmara dos Deputados.

Meses depois do embate, os dois foram submetidos à mesma urna.

O resultado foi brutalmente diferente.

Lucas Polese: 419.735 votos. Eleito.

Freitas: 49.840 votos. Suplente.

Polese terminou como o candidato a deputado federal mais votado do Espírito Santo e alcançou 19,66% dos votos válidos para o cargo, registrando ainda a maior votação proporcional do país nesta eleição.

Freitas terminou em 15º lugar entre os 130 candidatos, com 2,33% dos votos válidos. Dentro do PSB, ficou como segundo suplente, atrás de Tyago Hoffmann.

Entre os dois, uma diferença de 369.895 votos.

Antes das urnas, veio o Contorno de São Mateus

O confronto político entre Polese e Freitas começou muito antes da campanha eleitoral.

Um dos principais capítulos aconteceu em torno das obras do Contorno de São Mateus, na ES-318, executadas pelo Departamento de Edificações e de Rodovias do Espírito Santo.

Freitas havia comandado o DER-ES.

Polese colocou o caso no centro de sua atuação fiscalizadora e passou a levantar questionamentos relacionados à execução da obra e ao processo envolvendo uma propriedade de Freitas alcançada pela desapropriação.

O parlamentar buscou documentos e levou o assunto aos órgãos de fiscalização.

Em junho, seu gabinete conseguiu, por meio de mandado de segurança, acesso ao Relatório de Inspeção nº 004/2026 da Secretaria de Estado de Controle e Transparência (Secont).

Polese passou então a utilizar elementos do documento para sustentar publicamente suas denúncias contra a gestão de Freitas no DER.

O caso chegou aos órgãos de controle

A controvérsia não ficou restrita ao confronto político.

Em julho, o Ministério Público de Contas do Espírito Santo (MPC-ES) acolheu denúncia apresentada por Polese e instaurou representação para apurar supostas irregularidades relacionadas às obras do Contorno de São Mateus.

O processo foi encaminhado para análise técnica no âmbito do Tribunal de Contas.

Esse ponto exige uma distinção importante:

investigação, representação ou apontamentos de auditoria não significam condenação.

Freitas contestou as acusações e negou irregularidades.

Portanto, o caso deve continuar sendo tratado como objeto de apuração pelos órgãos competentes, e não como responsabilidade definitivamente estabelecida.

E então os dois foram para a mesma disputa

A eleição acrescentou um elemento que ninguém poderia produzir artificialmente.

Polese e Freitas acabaram concorrendo exatamente ao mesmo cargo: deputado federal pelo Espírito Santo.

Foi aí que a comparação ganhou outra dimensão.

Polese entrou na disputa pelo PL.

Freitas, pelo PSB.

Quando as urnas fecharam, a distância entre os dois impressionou.

Polese alcançou 419.735 votos.

Freitas terminou com 49.840.

Polese sai das urnas em outro patamar

A votação de Lucas Polese não foi simplesmente boa.

Foi extraordinária.

Além de terminar em primeiro lugar no Espírito Santo, Polese alcançou a maior votação proporcional para deputado federal do Brasil em 2026, segundo a Agência Câmara.

A dimensão do resultado muda seu tamanho dentro da política capixaba.

Polese deixa a Assembleia Legislativa e chegará à Câmara dos Deputados em fevereiro de 2027 carregando mais de 419 mil votos.

O deputado que construiu parte de sua imagem política na fiscalização e no enfrentamento direto a governos e gestores agora transforma essa exposição em um resultado eleitoral gigantesco.

Freitas também cresceu mas não levou a cadeira

Existe, entretanto, um dado que precisa ser colocado na mesa para que a análise seja justa.

Freitas cresceu eleitoralmente.

Em 2022, recebeu 36.791 votos para deputado federal.

Agora alcançou 49.840, sua maior votação pessoal registrada nas sete eleições que disputou desde 2006.

Foram 13.049 votos a mais em quatro anos.

Em São Mateus, sua principal base, Freitas recebeu 18.005 votos, correspondentes a 28,06% dos votos válidos do município destinados ao cargo.

Portanto, não houve desaparecimento eleitoral.

Houve crescimento.

O problema para Freitas é outro:

ele cresceu, mas não o suficiente para conquistar Brasília.

O PSB conseguiu apenas uma das dez cadeiras capixabas, ocupada por Manu, que recebeu 69.398 votos. Tyago Hoffmann, com 68.915, tornou-se o primeiro suplente, e Freitas, com 49.840, o segundo.

Quem venceu o embate?

Eleitoralmente, não existe discussão.

Polese saiu gigantesco.

Mas seria precipitado afirmar que o caso do Contorno explica sozinho a diferença de quase 370 mil votos.

Uma eleição estadual envolve partido, ideologia, redes sociais, estrutura eleitoral, bases municipais, posicionamento político, alianças e dezenas de outros fatores.

Não existe dado que permita afirmar que Polese recebeu 419 mil votos por causa de Freitas.

Também não existe evidência que permita atribuir a não eleição de Freitas exclusivamente às denúncias.

Mas existe uma conclusão política legítima.

O confronto que marcou parte de 2026 terminou com seus dois protagonistas em posições absolutamente distintas.

O deputado que levou as denúncias adiante foi eleito com votação histórica.

O ex-dirigente que precisou responder aos questionamentos conseguiu sua maior votação pessoal, mas terminou novamente sem mandato titular.

O julgamento das urnas acabou. O dos órgãos de controle, não

Esse talvez seja o ponto mais importante.

A eleição resolveu quem irá para Brasília.

Mas não resolveu o mérito das questões levantadas sobre o Contorno de São Mateus.

Essas respostas cabem aos órgãos responsáveis pelas apurações.

Contorno de São Mateus ES

Polese seguirá para a Câmara dos Deputados fortalecido por uma votação impressionante.

Freitas continuará politicamente ativo, agora como segundo suplente do PSB e sustentado por uma base de quase 50 mil eleitores.

Mas a fotografia política de 4 de outubro já está registrada.

Durante meses, Polese e Freitas estiveram em lados opostos no caso do Contorno de São Mateus.

Depois foram adversários nas urnas.

Um terminou com 419 mil votos e uma cadeira em Brasília.

O outro, com 49 mil e a suplência.

E, eleitoralmente, 2026 colocou os dois em lados completamente diferentes da história.