“Facção não pode virar sócia do Estado”: Rafael Pacheco faz diagnóstico duro da segurança pública e explica por que entrou na política

“Facção não pode virar sócia do Estado”: Rafael Pacheco faz diagnóstico duro da segurança pública e explica por que entrou na política

Ex-secretário da Justiça e policial com 33 anos de carreira fala sobre facções, sistema prisional, ressocialização, modelo de El Salvador e afirma que segurança precisa deixar de ser administrada apenas na emergência

A segurança pública costuma ser debatida quando a crise já explodiu. Rebelião, homicídio, avanço de facção, superlotação, fuga, ataque, medo nas ruas.

Para Rafael Pacheco, ex-secretário de Estado da Justiça e policial com 33 anos de carreira, esse é justamente um dos erros centrais do poder público: administrar segurança como quem apaga incêndio, em vez de construir um sistema capaz de funcionar com eficiência, inteligência e respeito à lei.

Em entrevista ao Política Capixaba Podcast, Pacheco fez um dos debates mais duros sobre segurança pública já apresentados no programa. Falou sobre crime organizado, sistema penitenciário, ressocialização, limites do Estado, o chamado “modelo El Salvador” e a decisão de deixar uma trajetória essencialmente técnica para entrar na política.

Logo nos primeiros minutos, resumiu sua posição sobre facções com uma frase direta:

“Não é negar a existência da facção criminosa. Ela existe, mas eu não posso dar um CNPJ para ela, senão ela vira sócio do Estado.”

A declaração sintetiza uma das teses centrais defendidas por Pacheco: o Estado precisa reconhecer a existência e a força das organizações criminosas para enfrentá-las, mas jamais pode naturalizá-las como interlocutoras legítimas do poder público.

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“Ele vai sair do presídio e vai andar na rua que você anda”

Outro momento forte da entrevista surgiu quando o assunto entrou no sistema penitenciário e na ressocialização.

Pacheco rejeitou a ideia de que oferecer trabalho, disciplina, estudo ou mecanismos de reinserção ao preso seja uma espécie de benevolência.

Para ele, a lógica é exatamente o contrário.

“Você que acha que eu tô querendo quebrar o galho do preso, tô nem aí para ele. Eu tô aí para você, porque ele vai sair do presídio e vai andar na rua que você anda.”

A fala traduz uma visão pragmática sobre política penitenciária.

A maior parte das pessoas que cumprem pena um dia retorna à sociedade. Por isso, argumenta Pacheco, a questão não deveria ser tratada como escolha entre “punir” ou “ressocializar”, mas como parte da própria estratégia de segurança pública.

Um preso que deixa o sistema mais organizado pelo crime representa um risco maior para a população. Um sistema capaz de reduzir reincidência, na visão defendida pelo ex-secretário, protege quem está fora dos muros.

O Estado não pode viver de emergência

Ao longo da conversa, Pacheco defendeu uma mudança de lógica na segurança pública: sair da gestão permanente de crises para entrar em uma fase de eficiência institucional.

Isso significa, segundo ele, planejamento, inteligência, cumprimento das leis, integração entre instituições e gestão profissional.

A experiência acumulada durante décadas na área e sua passagem pela Secretaria de Estado da Justiça aparecem no discurso como base para uma crítica recorrente: quando o sistema público só reage depois que o problema se torna emergência, o custo social e financeiro é muito maior.

Para Pacheco, segurança pública exige continuidade.

Não pode depender apenas da ocorrência que viralizou naquela semana ou do crime que ganhou maior repercussão naquele momento.

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Facções criminosas e o limite do Estado

O crescimento das organizações criminosas no Brasil ocupou parte importante da entrevista.

Pacheco reconhece que facções existem, possuem estrutura e capacidade de organização. Mas alerta para um risco político e institucional: o Estado começar a adaptar suas decisões à lógica dessas organizações.

É nesse contexto que surge a frase sobre não conceder um “CNPJ” às facções.

O argumento é que reconhecer a realidade do crime organizado é necessário para enfrentá-lo. Transformá-lo, porém, numa espécie de agente informal de negociação significaria, na interpretação de Pacheco, enfraquecer a própria autoridade estatal.

A discussão ganha peso num momento em que segurança pública e combate ao crime organizado ocupam espaço cada vez maior no debate nacional.

Bukele e El Salvador: solução ou risco?

Pacheco também entrou num dos temas mais populares entre setores que defendem políticas mais duras contra o crime: o modelo adotado pelo presidente Nayib Bukele em El Salvador.

O país ganhou projeção internacional pela redução drástica dos índices de violência após uma ofensiva maciça contra gangues.

Pacheco, porém, faz uma leitura mais cautelosa.

Segundo ele, importar o modelo sem discutir o contexto jurídico é simplificar um problema complexo.

Medidas excepcionais podem envolver restrições importantes a direitos individuais e garantias constitucionais. Para Pacheco, qualquer sociedade que pretenda adotar políticas dessa natureza precisa discutir claramente quais direitos está disposta a limitar, por quanto tempo e sob quais controles institucionais.

Ou seja: endurecimento contra o crime, sim; atalho institucional sem debate, não.

Uma frase sobre mães que mudou o tom da entrevista

Em meio a um debate essencialmente técnico, houve também espaço para um momento mais emocional.

Ao falar sobre famílias que convivem com as consequências do sistema criminal e da prisão, Pacheco destacou o papel das mães.

“Mãe não é gente, mãe é autarquia, mãe não tem CPF, mãe tem CNPJ, mãe é a projeção de Deus na terra.”

A frase arrancou o debate do campo das estatísticas e colocou no centro as famílias que acompanham filhos, vítimas, presos e profissionais envolvidos diariamente com violência e sistema penitenciário.

Foi também um dos momentos que revelaram um lado diferente do ex-secretário, conhecido principalmente pela trajetória técnica na segurança.

“Policiais são pacificadores por definição”

Outra passagem de impacto veio quando Pacheco relembrou um acidente traumático durante sua trajetória profissional.

A experiência, segundo ele, mudou sua compreensão sobre o papel de quem veste uma farda ou trabalha na segurança pública.

“Naquele dia eu entendi o que era ser policial. Nós policiais somos pacificadores por definição.”

A declaração contrasta com uma visão que reduz o trabalho policial exclusivamente ao confronto.

Na interpretação apresentada por Pacheco, a força existe porque o Estado precisa estar preparado para utilizá-la quando necessário, mas a finalidade última da segurança pública é produzir ordem e paz social.

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De técnico a candidato

Depois de mais de três décadas atuando diretamente na segurança pública, Pacheco decidiu entrar na disputa eleitoral.

A mudança não significa, segundo ele, abandonar o perfil técnico.

É exatamente essa experiência que pretende transformar em plataforma política.

Pacheco enxerga nas forças de segurança um campo importante de representação, mas argumenta que o tema atravessa praticamente todas as áreas da sociedade.

Segurança afeta educação, saúde, desenvolvimento econômico, turismo, comércio, emprego e qualidade de vida.

Esse é o ponto que pretende levar para o debate político: segurança não como pauta isolada, mas como condição para o funcionamento do restante do Estado.

Uma candidatura nascida de dentro do problema

A entrevista deixa evidente que Rafael Pacheco pretende construir sua candidatura a partir de uma diferença específica: ele não chega ao debate apenas com um discurso sobre segurança.

Chega depois de 33 anos vivendo o tema por dentro.

Foi policial, gestor e secretário responsável pelo sistema de Justiça e administração penitenciária.

Agora, entra numa arena diferente.

Se antes precisava executar políticas públicas, passa a buscar espaço justamente onde leis, orçamento e prioridades do Estado são definidos.

E talvez a síntese de sua candidatura esteja no próprio tom da entrevista: menos promessa genérica de “acabar com o crime” e mais discussão sobre como fazer o Estado funcionar melhor diante dele.

No Política Capixaba Podcast, Pacheco apresentou um diagnóstico duro.

E deixou uma mensagem igualmente clara:

o crime organizado evoluiu — e o Estado não pode continuar enfrentando problemas novos com estruturas e métodos antigos.

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