Opinião | Errar é humano. Assumir o erro também deveria contar
Anderson Goggi errou ao se exceder em um momento de irritação, mas transformar um desabafo captado após a sessão em sentença definitiva sobre sua conduta é ignorar algo básico: pessoas públicas continuam sendo pessoas
Na política, parece existir uma regra cada vez mais perigosa: alguém pode construir uma trajetória durante anos, mas bastam alguns segundos ruins para que toda a sua história seja colocada no banco dos réus.
Foi mais ou menos isso que aconteceu com o presidente da Câmara de Vitória, Anderson Goggi, após um desabafo com palavrões ganhar enorme repercussão nas redes sociais.
O episódio aconteceu depois de uma sessão marcada por tensão. Goggi encerrou os trabalhos, acreditou estar fora daquele ambiente formal de manifestação pública e, irritado com o que havia acabado de acontecer, desabafou.
O problema? O microfone ainda estava aberto.
Foi um erro.
As palavras foram inadequadas, especialmente partindo de alguém que ocupa a Presidência do Legislativo da capital. O próprio Anderson Goggi reconheceu isso.
Mas existe uma distância enorme entre reconhecer um erro e transformar quem errou em um monstro.
Quem nunca falou algo que gostaria de retirar depois?
É fácil assistir a alguns segundos de vídeo pelo celular, fora de todo o contexto, e assumir imediatamente a posição de juiz.
Difícil é fazer uma pergunta simples:
Quem nunca perdeu a paciência?
Quem nunca falou um palavrão em um momento de raiva?
Quem nunca terminou uma discussão, virou para alguém de confiança e fez um desabafo que jamais faria diante de uma plateia?
Isso não significa normalizar qualquer comportamento de uma autoridade pública. Quem ocupa um cargo político precisa, sim, ser mais cuidadoso com suas palavras.
Mas exigir responsabilidade é uma coisa. Exigir perfeição humana é outra completamente diferente.
Anderson Goggi não preparou um discurso oficial recheado de palavrões. Não convocou uma entrevista coletiva para atacar alguém. Foi uma reação intempestiva depois de uma situação de tensão, registrada porque aquilo que ele imaginava ser um momento fora da sessão acabou sendo captado.
Infelizmente para ele, o microfone estava aberto.
E a internet não perdoa microfones abertos.
O erro viralizou. A retratação também merece ser considerada
Existe outro aspecto dessa história que não pode ser ignorado.
Quando chegou a hora de enfrentar as consequências, Anderson Goggi poderia ter escolhido o caminho mais comum da política: relativizar, terceirizar a culpa, dizer que foi mal interpretado ou simplesmente se esconder atrás de uma nota escrita por assessores.
Preferiu assumir. “Eu xinguei.”
É uma frase simples, mas politicamente significativa.
Ele reconheceu que se excedeu, explicou que estava indignado e pediu desculpas publicamente aos servidores e às pessoas que eventualmente tenham se sentido ofendidas.
Mais importante ainda, disse algo que deveria parecer óbvio, mas que frequentemente esquecemos quando julgamos alguém nas redes sociais:
“Pessoas acertam e pessoas erram.”
É exatamente isso.
Reconhecer o erro não apaga o que aconteceu. Mas revela muito sobre como alguém decide lidar com aquilo que fez.
Uma trajetória não pode ser resumida a alguns segundos
O episódio merece crítica? Claro.
Mas também merece proporcionalidade.
Se queremos avaliar seriamente Anderson Goggi como homem público, precisamos analisar o conjunto: seus mandatos, sua atuação parlamentar, sua passagem pela Presidência da Câmara, suas decisões, seus acertos e também seus erros.
Reduzir tudo isso a alguns segundos de um desabafo é intelectualmente pobre.
Vivemos uma época em que um recorte viral frequentemente pesa mais do que anos de trajetória.
Isso deveria nos preocupar.
Porque amanhã pode ser outro político, um empresário, um jornalista, um professor ou qualquer cidadão flagrado justamente nos piores 20 segundos do seu dia.
Imagine se todos nós fôssemos julgados exclusivamente pelo pior momento que alguém conseguiu gravar.
Pouquíssima gente sobreviveria ao tribunal das redes sociais.
Criticar, sim. Crucificar, não
Anderson Goggi não precisa ser tratado como vítima.
Ele errou e assumiu que errou.
Talvez seja justamente aí que esteja o ponto.
Responsabilidade pública não significa nunca cometer erros. Significa também ter maturidade para aparecer quando eles acontecem, olhar para as pessoas e dizer: eu errei, peço desculpas e assumo as consequências das minhas palavras.
Foi isso que ele fez.
É possível discordar de Anderson Goggi politicamente. É possível criticá-lo pelo palavreado. É possível considerar que, como presidente da Câmara, deveria ter demonstrado maior controle naquele momento.
Tudo isso é legítimo.
O que parece desproporcional é transformar um momento de irritação em uma espécie de definição absoluta sobre quem ele é.
Um microfone aberto revelou alguns segundos ruins de Anderson Goggi.
A forma como ele apareceu depois, sem negar o ocorrido, assumindo o erro e pedindo desculpas, revelou outra coisa também.
E, se vamos julgar o primeiro momento, é justo considerar o segundo.
Porque errar é humano.
Ter coragem para assumir publicamente o próprio erro também é.

Jornalista, publicitário e estrategista de marketing político. Diretor do Consórcio de Notícias do Brasil, apresentador do CNBCAST e autor do livro “Manual do Candidato Vencedor”, referência em narrativas e estratégias eleitorais.



