Um ano depois, luta de Laudelina pela humanização do luto materno ganha força na disputa pela Assembleia

Um ano depois, luta de Laudelina pela humanização do luto materno ganha força na disputa pela Assembleia

Antes de entrar na corrida eleitoral de 2026, candidata de Cariacica já havia levado à Assembleia Legislativa um relato pessoal e cobrado atendimento digno para mães e famílias que enfrentam perdas gestacionais e neonatais

A candidatura de Laudelina dos Santos, conhecida como Lau Afros, a deputada estadual não começa apenas com discursos eleitorais. Uma das principais bandeiras que ela pretende levar à Assembleia Legislativa do Espírito Santo nasceu de uma experiência pessoal dolorosa e já havia sido apresentada ao Parlamento capixaba antes da campanha de 2026.

Em 26 de agosto de 2025, Laudelina participou da 6ª Reunião Ordinária da Comissão de Saúde e Saneamento da Assembleia Legislativa. Na ocasião, compartilhou sua própria história e defendeu a implementação da Política Nacional de Humanização do Luto Materno e Parental no Espírito Santo.

Um ano depois, a pauta volta ao centro do debate. Agora candidata a uma cadeira na Assembleia, Laudelina pretende transformar a experiência vivida e a mobilização iniciada anteriormente em fiscalização, políticas públicas e proteção efetiva para as mães e famílias capixabas.

Uma dor pessoal transformada em luta coletiva

Durante a reunião da Comissão de Saúde, Laudelina relatou uma perda vivida em 2001 e falou sobre a falta de empatia, acolhimento e acompanhamento psicológico que enfrentou naquele momento.

Segundo ela, o atendimento inadequado não apenas tornou a experiência ainda mais dolorosa, como também provocou consequências para sua saúde emocional.

Ao apresentar o relato publicamente, Laudelina não buscou apenas relembrar uma tragédia pessoal. Sua intenção foi alertar para uma realidade enfrentada silenciosamente por milhares de mulheres: além da perda de um filho, muitas mães ainda precisam conviver com ambientes hospitalares despreparados, profissionais sem capacitação específica e ausência de suporte psicológico.

Ao lado de Poliane Maria Neves, também convidada para a reunião, Laudelina defendeu que hospitais e maternidades tenham espaços separados e equipes preparadas para acolher mães que sofreram perdas gestacionais, fetais ou neonatais.

A mensagem levada à Assembleia foi clara: nenhuma mulher deveria enfrentar, ao mesmo tempo, a dor da perda e a frieza do atendimento público.

A lei existe, mas precisa funcionar

A Lei Federal nº 15.139, sancionada em maio de 2025, instituiu a Política Nacional de Humanização do Luto Materno e Parental.

A legislação estabelece medidas para garantir atendimento digno e humanizado às mulheres e famílias que enfrentam perda gestacional, óbito fetal ou óbito neonatal.

Entre os direitos e medidas previstos estão:

  • atendimento humanizado nos serviços públicos e privados de saúde;
  • acompanhamento psicológico após a alta hospitalar, preferencialmente em domicílio ou em unidade próxima da residência;
  • acomodação da mãe enlutada em ambiente separado das demais gestantes e mães com recém-nascidos;
  • direito a acompanhante durante o parto de natimorto;
  • possibilidade de uma despedida digna, respeitando a vontade da família;
  • registro do natimorto com o nome escolhido pelos pais;
  • investigação da causa da perda;
  • capacitação dos profissionais de saúde;
  • criação de protocolos específicos de acolhimento.

Em fevereiro de 2026, o Ministério da Saúde publicou a Portaria GM/MS nº 10.273, regulamentando ações para a implementação dessa política no Sistema Único de Saúde, de forma integrada à Rede Alyne.

Com a regulamentação, estados e municípios passaram a ter responsabilidades ainda mais claras. Cabe ao poder público organizar os serviços, adequar os fluxos de atendimento, preparar equipes multiprofissionais e fiscalizar o cumprimento das medidas.

Para Laudelina, porém, a existência da legislação não encerra o debate.

“A lei precisa ser sentida na vida das mulheres. Não adianta o direito existir no papel se, no momento da dor, a mãe continuar sem acolhimento, acompanhamento psicológico e respeito”, defende.

Cobrança ao Governo do Estado

Na reunião realizada em 2025, o deputado Fábio Duarte, que presidiu os trabalhos da Comissão de Saúde, afirmou que buscaria diálogo com a Secretaria de Estado da Saúde para tratar da implementação das medidas no Espírito Santo.

Passado um ano daquele debate, a questão permanece atual: até que ponto os hospitais e as maternidades capixabas já estão preparados para cumprir integralmente a política de humanização do luto materno e parental?

Existem espaços separados para as mães enlutadas? As equipes estão capacitadas? O acompanhamento psicológico está sendo oferecido depois da alta? As famílias estão recebendo informações sobre seus direitos?

São perguntas que, segundo Laudelina, precisam ser respondidas pelo Governo do Estado e pelas administrações municipais.

Caso seja eleita deputada estadual, ela afirma que pretende acompanhar a aplicação da legislação, cobrar informações da Secretaria de Estado da Saúde, fiscalizar as condições das maternidades e abrir espaço para ouvir mães, familiares e profissionais da área.

Uma bandeira que veio antes da eleição

A participação de Laudelina na Comissão de Saúde aconteceu antes do atual momento eleitoral. Isso ajuda a demonstrar que sua relação com o tema não nasceu como estratégia de campanha.

A bandeira surgiu de uma dor real, transformada posteriormente em mobilização pública.

Em uma eleição marcada por promessas e discursos genéricos, Laudelina procura apresentar uma pauta concreta, acompanhada de história pessoal e participação anterior no debate legislativo.

Sua candidatura tenta mostrar que representatividade não significa apenas ocupar uma cadeira, mas levar para o poder público experiências e problemas que muitas vezes permanecem invisíveis.

Da experiência pessoal para a Assembleia

Ao falar na Assembleia Legislativa em 2025, Laudelina deu voz a mulheres que enfrentam o luto materno em silêncio e que, em muitos casos, ainda encontram unidades de saúde despreparadas para reconhecer a dimensão física e emocional da perda.

Agora, como candidata a deputada estadual por Cariacica, Lau Afros pretende transformar essa atuação em uma bandeira permanente dentro do Parlamento capixaba.

O desafio será transformar acolhimento em protocolo, protocolo em atendimento e atendimento em direito efetivamente cumprido.

Porque nenhuma mãe deveria enfrentar, além da perda de um filho, o abandono, a insensibilidade ou o despreparo do Estado.

A lei já existe. A luta de Laudelina agora é para que ela saia definitivamente do papel.

Nota da redação: A Secretaria de Estado da Saúde será procurada para informar quais medidas já foram adotadas no Espírito Santo para o cumprimento da Política Nacional de Humanização do Luto Materno e Parental. O posicionamento poderá ser acrescentado à matéria assim que for encaminhado.